Principal remanescente da Mata Atlântica no município de Lages, distribuído em 234 hectares de vasta riqueza de flora e fauna e com 21 anos de fundação, o Parque Natural João José Theodoro da Costa Neto foi utilizado como campo de treinamento ao longo do dia desta quarta-feira (28 de fevereiro). O público-alvo foi formado por cerca de 30 profissionais, entre biólogos e médicos veterinários de 19 gerências regionais de Saúde e de Centros de Controle de Zoonoses (CCZs) de diferentes partes do Estado.

O biólogo e entomólogo, João César do Nascimento, da Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive), da Secretaria de Estado da Saúde, atuante no Laboratório de Entomologia, ministrou a capacitação aos técnicos no âmbito da coleta de vetores de febre amarela para que então possa ser feito o isolamento viral caso haja constatações. O programa de prevenção e combate à febre amarela possui várias fases de atividades, dentre as quais a coleta de vetores para que seja possível a comprovação da circulação viral da doença, através dos mosquitos recolhidos a serem encaminhados ao laboratório de referência para identificação e presença ou ausência do vírus - Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Paralelamente ao mosquito Aedes aegypti, propagador, além da febre amarela, da dengue, febre chikungunya e zika vírus, há vetores da febre amarela em ambiente silvestre, como os insetos das espécies Haemagogus (com ênfase aos tipos janthinomys e leucocelaenus) e Sabethes (chloropterus - possível vetor da febre amarela, já encontrado naturalmente infectado), realizadores de contágio encontrados em coletas de campo na mata, principalmente onde há epizootia (doença que apenas ocasionalmente se encontra em uma comunidade animal, mas que se dissemina com grande rapidez e apresenta grande número de casos).

“Geralmente encontra-se estes tipos de vetores em ambiente de mata secundária, de Mata Atlântica. Devido às condições climáticas, muitas vezes em uma única coleta não se consegue capturar, o que não quer dizer que o vetor não exista ali naquele local. O trabalho normal de rotina seria de cinco dias consecutivos das 9h às 16h. No treinamento é diferente. Aqui em Lages o pessoal foi dividido em dois grupos: um deles trabalha com o vetor e o outro faz a coleta de animal, o reservatório silvestre, ou seja, coleta de vísceras de animais, como os primatas que tenham morrido atropeladom ou por causa indefinida. As vísceras também são encaminhadas ao laboratório para ser diagnosticada a existência ou não da circulação do vírus”, pontua João César. Além dos equipamentos comuns a este tipo de pesquisa a campo, como pranchetas, botinas e redes, o nitrogênio é um dos principais ingredientes, pois mantém o inseto/vírus viável para o isolamento viral, com acondicionamento adequado, assegurando a eficácia dos diagnósticos.

Por se tratar de um treinamento e por inexistir epizootia, os materiais coletados em Lages serão encaminhadso ao laboratório do Estado, em Florianópolis, para identificação taxonômica (espécies que ocorrem no Parque). Não haverá isolamento viral. Portanto, não há necessidade de o material ser enviado ao laboratório de referência, o Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas.

Em 2010, na região da Serra houve casos de  epizootia, mas sem confirmação da presença do vírus da febre amarela. No mesmo ano, no Rio Grande do Sul houve casos de epizootia e de febre amarela. Entre os vírus estão Rossi, Saint Louis e Mayaro, não encontrados na Serra, mas sim no Norte e na Amazônia. “De lá para cá estamos trabalhando para poder tentar identificar circulação ou não viral. Os Estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro são os mais acometidos pela doença, tanto episódios de epizootia quanto de humanos. A doença se propaga aos poucos e temos de nos prevenir. Santa Catarina teve um longo período sem casos. O último foi em 1966, no Oeste”, conclui o biólogo João César. Havia uma determinada área de transição para recomendação de vacina, agora estendida para outras regiões, como Norte e Planalto Norte, com exceção apenas do litoral.

Simulação de necrópsia de primata

No treinamento, veterinárias realizaram a simulação de uma necrópsia de um macaco bugio encontrado morto na região da Serra e que teria sido atropelado. O animal foi encaminhado à Polícia Militar Ambiental, que congelou o corpo até ser destinado ao estudo desta tarde no Parque Natural, quando houve a averiguação, a exemplo de biometria - perímetro encefálico e de mãos e pés, e observação de órgãos.

O material será encaminhado para análise laboratorial no Instituto Carlos Chagas - Fiocruz, em Curitiba (PR), e o corpo do animal levado ao CCZ de Lages para ser enterrado. O resultado do exame deve sair entre 15 e 20 dias. Os macacos são vítimas da febre amarela, porém, não são transmissores. Por ter sido congelado, as condições de verificação se a causa do óbito foi febre amarela tornam-se mais complexas. Nos casos de constatação do vírus, abre-se um raio de 300 metros como área de atenção e a vacina deverá ser aplicada nas pessoas próximas ao local do óbito.  

A bióloga da Secretaria de Serviços Públicos e Meio Ambiente, Michelle Pelozato, acompanhou as atividades. “Acredito que nos últimos dez anos esta é a primeira vez em que este trabalho acontece aqui no Parque. É uma forma de divulgar este espaço, onde, além de trabalharmos a educação ambiental de estudantes do ensino fundamental e médio, abrimos as oportunidades para pesquisa e extensão por universidades. O fato de a Dive estar conosco significa preocupação com a saúde pública envolvendo a unidade de conservação.” O coordenador do Programa de Controle do Aedes aepypti em Lages, Marcio Rodrigues da Silva, participou da atividade.

Fotos: Toninho Vieira - Texto: Ascom/PML