Jary André Carneiro: Presente!

            Tão fria como a madrugada do dia 22 de maio de 2018, foi a notícia que recebi do Hermes: Jary acabou de falecer. Esta longa “via-crucis” que sua esposa “Juca” e seus filhos Jaryzinho e Andreia viveram nos últimos dias, foi compartilhada por centenas de amigos que este professor, padre e pai agregou ao longo de seus 78 anos de vida.

            Minha memória agradecida me fez retornar aos primeiros anos de seminário, quando Jary foi nosso professor de Latim e Psicologia Social no Instituto São João Batista Vianei. Com ele aprendi que “aluno” significa “um ser que não tem luz” e, por isso, ele sempre nos exortava: “Não quero que vocês sejam alunos, mas estudantes!” No último dia de aula de Latim, em novembro de 1981, professor Jary perguntou a cada um de nós quais eram nossos projetos para o futuro. Depois de nos ouvir atentamente, abriu a Bíblia e recitou para nós um texto do livro de Eclesiástico: “Meu filho, se você se apresenta para servir ao Senhor, prepare-se para a provação. Oriente seu coração, seja constante e não se desvie no tempo da adversidade. Una-se ao Senhor e não se separe, para ser exaltado no último dia. Aceite tudo o que lhe acontecer, e resista nas situações de humilhação, porque o ouro é provado no fogo e as pessoas escolhidas, no forno da humilhação. Confie no Senhor, e ele o ajudará; oriente seus caminhos e espere nele. [...] Vamos colocar-nos na mão do senhor, e não na mão dos homens, pois a misericórdia dele é como a sua grandeza.” (Eclo 2, 1-18)

            Depois de sete anos, em 15 de novembro de 1988, retornei a Lages para votar pela primeira vez. Jary era o meu candidato à prefeitura do município. Aquele que deixara de ser padre para assumir a missão de pai e professor, nos mostrava que o ensino transcendia os limites da sala de aula para chegar às ruas e às urnas, na militância sindical e política e no compromisso de trazer para a região serrana de Santa Catarina o sonho nascente daquele outro líder sindical do ABC paulista. Jary foi a inspiração do meu primeiro voto, “prá fazer brilhar nossa estrela”.

            Na celebração de memória da vida e da páscoa do Jary, Hermes nos convidou a meditar a parábola do semeador (cf. Lc 8, 4-8), recordando seu jeito simples de cuidar da horta de sua casa como se fosse um jardim. Entre pés de tangerinas, flores e alfaces, este “jardineiro fiel” nos deu outra lição. Com a permissão de Rubem Alves, ensinar é sinônimo de semear... é um exercício de imortalidade, pois quem ensina se torna imortal nas pessoas que aprenderam a ver o mundo com seus próprio olhos.

No final da celebração, ainda no Parque da Saudade, encontrei Darceu, velho amigo do Cerrito. No abraço, me disse entre lágrimas: “Estou aqui em nome do meu pai, grande admirador do professor Jary. Tanto que ele dizia: Esse padre é um santo, vou dar o nome dele ao meu filho. Por isso, meu irmão mais novo chama-se Jary”. Minha memória agradecida recordou as palavras de Renato Russo: “Meu filho vai ter nome de santo, quero o nome mais bonito”.

A boniteza do nome, do testemunho e da vida do Jary acorda em nós as melhores memórias, assim como a sua morte naquela madrugada escura e fria fez acordar a manhã mais ensolarada deste outono. Exímio contador de causos e de etimologias, professor Jary sabia bem o sentido da palavra companheir@, aquel@ que compartilha da mesma mesa e do mesmo pão. Sua caminhada de professor, padre e pai, está povoada de palavras e mesas compartilhadas: “Naquela mesa ele sentava sempre e me dizia sempre o que é viver melhor. Naquela mesa ele contava histórias que hoje na memória eu guardo e sei de cor. Naquela mesa ele juntava gente e contava contente o que fez de manhã. E nos seus olhos era tanto brilho que mais que seu filho eu fiquei seu fã.”

Jary André Carneiro: Presente!

Lages, 23 de maio de 2018

pe. Roberto

beto.jr.moreira@gmail.com