A alta na mortalidade provocada pelo novo coronavírus, constatada aqui na última terça-feira, pode ter duas explicações. A primeira, mais óbvia, é o impacto da pandemia no sistema de saúde. Mais gente morre de outras doenças porque não é atendida em hospitais sobrecarregados. Menos tumores são removidos a tempo. O cuidado com moléstias crônicas sofre relaxamento. Há também uma segunda explicação, menos evidente: a ignorância sobre os efeitos da Covid-19 no organismo.

A ação do vírus Sars-CoV2 vai além da pneumonia caracterizada pelo aspecto de vidro fosco nas tomografias do pulmão. O coronavírus também pode atingir rins, cérebro, olhos, fígado, intestino e coração. Pacientes morrem em geral pela reação do sistema imune, que tenta combater a doença, sai do controle e ataca células do próprio corpo.

Entender a reação complexa do corpo humano ao vírus é um desafio que intriga os cientistas. Um médico de 32 anos que trabalhava na Zona Leste paulistana e no ABC, infectado com o Sars-CoV2, só foi sentir falta de ar na véspera do dia em que buscou internação. Morreu horas depois. A ação silenciosa do vírus faz que várias vítimas não sintam dificuldade para respirar, ainda que seus níveis de oxigênio estejam caindo a níveis perigosos. Quando se dão conta, pode ser tarde demais

As portas de entrada ao Sars-CoV2 estão nas células dos alvéolos pulmonares, mas também no coração, vasos sanguíneos, rins e intestinos. “A profusão de receptores da enzima ECA-2 nos vasos sanguíneos, intestino, coração e, claro, na porta de entrada pulmonar é um grande facilitador da disseminação viral”, afirma o cardiologista Sergio Kaiser, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Em Brescia, na Itália, uma mulher de 53 anos chegou à emergência com todos os sintomas de um ataque cardíaco, mas exames não detectaram nenhum bloqueio em suas coronárias. Ela estava com Covid-19.

Pesquisas recentes com pacientes de Wuhan, na China, constataram danos cardíacos em quase 20% dos pacientes graves e arritmia em quase metade deles. Coagulação anormal, a hipótese investigada no Sírio, foi constatada em quase 40% dos pacientes num estudo holandês. “Se a Covid-19 ataca vasos sanguíneos, isso poderia explicar por que pacientes com danos pré-existentes, de diabetes ou pressão alta, enfrentam risco mais alto”, diz uma análise na Science.

Apesar de a doença atacar os pulmões, em geral não mata tanto os asmáticos ou portadores de outras doenças respiratórias. Em compensação, quase um terço dos internados num hospital de Wuhan apresentavam problemas renais. O sistema nervoso, onde também existem células com receptores da ECA-2, é outro alvo de ataques. Pacientes apresentam dores de cabeça, convulsões, nos casos sérios até derrames. Noutros casos, o alvo é o intestino. Uma paciente americana de 71 anos, com diarreia e vômitos, foi diagnosticada com infecção intestinal até testar positivo para o Sars-CoV2.

O principal mecanismo por meio do qual o vírus mata, contudo, é aparentemente a reação descontrolada do sistema imune. A produção desenfreada de moléculas chamadas “citocinas”, necessárias à coodenação da resposta do organismo a invasores, desencadeia uma multiplicação nas células de defesa, que começam a atacar as células do próprio corpo, gerando as inflamações que levam à morte.

“É essa tempestade de citocinas que mata”, diz o oncologista Bruno Filardi, do Instituto do Câncer Brasil. “Doenças como artrite reumatoide, lúpus, poliomielite, linfomas ou infecção pelo HIV também podem evoluir para esse tipo de resposta.” Daí a tentativa de tratar os pacientes de Covid-19 com drogas que se revelaram eficazes contra essas doenças. Até agora, contudo, apesar de vários estudos promissores, o vírus ainda tem levado a melhor. Combatê-lo de modo eficaz exigirá mais conhecimento sobre sua ação sorrateira e silenciosa.

 

Por Helio Gurovitz - G1