Na relação direta entre produtor/consumidor, as feiras semanais de alimentos da agricultura familiar são pontos chaves para uma transição gradual e efetiva para um consumo solidário e agroecológico

    Em Lages, as feiras semanais de hortigranjeiros, produtos coloniais e artesanais, realizadas semanalmente, têm tem como base a agricultura familiar. Nessas feiras, o produtor rural comercializa (vende) a produção diretamente ao consumidor, garantindo maior rentabilidade. Desta forma, o agricultor tem a segurança da produção e da comercialização dentro de um curto espaço de tempo. E, por outro lado, o consumidor também ganha, na medida em que pode contar com alimentos frescos e a preços mais atraentes, digamos assim. As feiras, organizadas com o incentivo do poder público municipal, de instituições e entidades educacionais e associações, inserem-se com um dos incentivos proporcionados pelas políticas públicas instituídas para fortalecer a agricultura familiar.

Dentre essas políticas públicas estão o crédito agrícola e o Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), criado em 2003, para garantir alimentos de qualidade à população. O PAA encontra-se, atualmente desativado. Já o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), em vigor, possibilita ao agricultor vender seus produtos como itens da merenda escolar.

Em Lages, segundo dados do IBGE (2006), havia 779 agricultores familiares, sendo a grande maioria concentrada no eixo Leste Oeste do território municipal, ou seja, estabelecidos nos distritos de Índios e de Santa Terezinha do Salto Caveiras. São produtores rurais com forte participação em várias cadeias produtivas, como a do leite, de hortaliças e do mel e com atuação também na agropecuária.

Para o ex-secretário municipal da Agricultura e Pesca, o engenheiro agrônomo e professor Moisés Savian, o potencial da agricultura familiar, em especial no município de Lages, é muito grande e isso se levado em conta que 98% da população da população concentra-se na área urbana. “Pelo fato de Lages ser um dos municípios mais urbanizados do Estado de Santa Catarina, há forte demanda por alimentos da agricultura familiar, daí a necessidade da inserção desse segmento produtivo em um Plano Municipal de Desenvolvimento Rural”, avalia Moisés Savian.

Segundo Moisés, trata-se de um segmento que além de contribuir com o desenvolvimento econômico municipal, é fator primordial para a fixação do homem no campo e por preservar, por exemplo, a paisagem rural, elemento de referência e identidade cultural.

O Sistema de Gerenciamento Rural (Sisger), criado pela prefeitura quando Moisés foi secretário da Agricultura e Pesca, em 2016, é citado por ele como uma das medidas governamentais que foi pensada também no contexto de fomento à Agricultura Familiar. “A questão da infraestrutura viária rural é fundamental. Com boas estradas, o agricultor escoa a produção, mas também tem melhor e mais facilitado acesso aos serviços de saúde e educação. Um jovem que precise estudar na cidade, sem boas estradas, terá de optar por abandonar a propriedade rural ou os estudos”, avalia.

Enfim, a Agricultura Familiar não sobrevive sozinha, depende de um conjunto de fatores e de políticas públicas que no geral se revertem em fomento à produção e comercialização. E muito ganhará com isso o consumidor, podendo contar com alimentos saudáveis e a preços mais baixos.

 

 

As Feiras

 

Existem, atualmente, cinco feiras de produtos da agricultura familiar, em Lages, as quais são abertas todas as semanas. Às quartas-feiras funcionam as feiras do Largo da Catedral (das 7horas às 17horas) e a do CAV-Udesc (das 7horas às 11horas). Às sextas-feiras abrem as feiras da Praça do Terminal Urbano (das 7horas às 17horas) e da Uniplac (das 8horas às 15horas). E aos sábados, tem a feira na praça de estacionamento do Ginásio Ivo Silveira. Em todas essas feiras são encontrados alimentos da cadeia produtiva agroecológica, mas aquelas que mais atendem esta demanda de consumo de produtos orgânicos sãos as feiras do CAV e da Uniplac.

Dentre uma série de produtos orgânicos, podem ser encontrados nas feiras cereais, legumes, verduras, chás, temperos, mel, batata iacon, de origem japonesa, que não existe fora da agroecologia.

 

Para os agricultores Aline e Valdemir Rodrigues Magruda, casados há 16 anos, as feiras são, já há uma década, fonte de renda muito importante para a permanência deles na atividade agrícola, em Campina dos Ribeiros, no interior do município de Correia Pinto.

Eles produzem alimentos orgânicos na pequena propriedade (herança de família).

Aline (33 anos) e Valdemir (40 anos) se integram ao grupo agroecológico denominado de Campina Verde, formado por oito famílias de agricultores, a maioria delas ligadas por laços parentescos. É um grupo que já existe há 20 anos.

“Eu e meu marido começamos nas feiras em 2010, na cidade de Correia Pinto. Ali existem duas feiras, uma às quartas-feiras e outra aos sábados. Agora nós participamos das feiras de Lages, onde representamos o nosso grupo. Estamos às quartas-feiras no Largo da Catedral e às sextas-feiras na praça do Terminal Urbano. Uma outra família do nosso grupo nos representa na feira do CAV, realizada também às quartas-feiras. E outros integrantes do grupo fazem feira em Correia Pinto”, conta Aline. Com isso, o Grupo Agroecológico Campina Verde comercializa a produção, semanalmente.

“A certificação orgânica de nossa produção é renovada a cada ano e ela custa hoje R$ 1.400,00, sendo feita por auditoria da Kiwa BCS Öko Garantie do Brasil LTDA. Antes quem fazia esta auditoria era a Ecovida”, diz Aline.

Cultivando em canteiros e em estufas, o adubo orgânico utilizado é o de “cama de aviário”, esterco curtido e com certificação.

Já com clientela formada, Aline conta que a maior parte da venda semanal á através das sacolas (encomendas antecipadas feitas pelos consumidores).

 

 

 

 

Incentivo à Agroecologia

 

 

Em nível de região serrana de Santa Catarina, a agroecologia ganhou força a partir do mês de dezembro de 2006, quando foi criado o Fórum de Produção/Consumo Solidário. A idéia era possibilitar a discussão em torno da produção, comercialização e consumo de alimentos nutritivos e saudáveis, cultivados sem a utilização de adubos químicos.

A efetivação desse movimento se deu com a participação de organizações governamentais, entidades educacionais e associações de agricultores. A partir daí foram criadas feiras agroecológicas nos municípios de Lages, São José do Cerrito, Ponte Alta e Curitibanos. Mais tarde um grupo de agricultores de Correia Pinto aderiu a essas feiras.

Em Lages a primeira feira gerada a partir deste Fórum foi a da Uniplac, a qual funciona todas as sextas-feiras (das 8horas às 15horas) e depois seria organizada a feira do CAV-Udesc. A essas feiras agroecológicas estão integrados dezenas de produtores rurais e uma clientela cativa que compra os alimentos orgânicos ofertados.

Centrado na economia solidária, este projeto de feiras permite que toda a produção seja comercializada aqui mesmo na região da Serra, sem que haja qualquer tipo de intermediação.

   O objetivo é possibilitar que o agricultor venda o seu produto diretamente ao consumidor e que o consumidor obtenha um produto agroecológico garantido. Assim, ambos os sujeitos dessa inter-relação saem ganhando. 

    Os consumidores são pessoas diretamente ligadas às entidades formadoras do Fórum Produção/Consumo Solidário, a Epagri, SDR, Amures, Uniplac, CAV-Udesc, Instituto Vianei de Educação Popular e demais entidades com consciência agroecológica. As feiras são auto-sustentáveis e se ampliam na medida em que novos consumidores surgirem deste processo de economia solidária.

 

Texto _ Iran Moraes

Foto _ Gugu Garcia

 

 

Certificação de produtos orgânicos

 

 

A certificação da produção é, sobretudo uma garantia ao consumidor de que ele realmente estará adquirindo alimentos orgânicos. Antes garantida, aqui no Sul do Brasil, pela Rede de Agroecologia Ecovida, hoje a certificação é feita por um órgão auditor e deve ser renovada anualmente.

Porém já se discute nos seminários de agroecologia em Santa Catarina, o 4º deles realizado na Uniplac, a instituição de certificação por meio de “sistema participativo de garantia interno”. Ainda hoje a certificação é de forma externa, hoje feita por auditoria.

No caso de Lages e região, a certificação poderia ser feita diretamente pelo Fórum de Produção/Consumo Solidário, o qual orientaria os produtores a fiscalizarem-se uns aos outros e assim o Fórum cuidaria das propriedades integradas ao sistema agroecológico.

O que se quer é criar uma lei de “garantia interno participativa” que credite o Fórum como um certificador dos produtores de alimentos agroecológicos.

 

 

Origem do Fórum

 

O movimento agroecológico na Serra Catarinense surgiu da preocupação de pesquisadores ligados à Associação Brasileira de Agroecologia (ABA), Uniplac, Vianei, Uniplac, CAV-Udesc, todos eles ligados ao Conselho de Segurança Alimentar (Consad) e Colegiado de Desenvolvimento Territorial Rural (Codeter). Essas entidades perceberam a necessidade de se discutir a agroecologia.

Outro elemento importante neste movimento foi a Ecoserra, cooperativa agroecológica existente em Lages e que se organizava a partir do Consad e do Codeter, além da pioneira feira organizada pela Associação de Moradores do Bairro Coral (hoje desativada). Assim surgiu o Fórum de Produção/Consumo Solidário, que fundamenta, organiza e delibera sobre as feiras agroecológicas. Na comissão executiva do Fórum estão representantes de entidades ligadas à sociedade civil: ABA-SC, Via Campesina, Cresol, Epagri e a Uniplac.