Os primeiros europeus que chegaram a Lages, no século XVI, logo denominaram a região de Campos das Lajens. Este nome foi dado por causa da ocorrência das lajes de arenito. Mas como foi que se formaram estas rochas que se espalham entre os campos e coxilhas, entre as encostas e escarpas de Lages e de grande parte da Região Serrana? E porque este arenito leva o nome de Botucatu? É o que veremos nesta matéria, que mostra a existência de antigo deserto que se transformou no maior reservatório de água doce subterrânea do planeta Terra.

 

O Aqüífero Guarani só veio a ser descoberto em meados do século passado, por geólogos latino-americanos. A partir dos estudos realizados, o antigo deserto que deu origem ao imenso manancial de águas doce subterrânea foi denominado de Deserto de Botucatu. O nome Botucatu é derivado da Serra de Botucatu, localizada no interior do Estado de São Paulo, onde o arenito ocorre de forma “espetacular”. Um exemplo disso nós temos aqui na Serra Catarinense, com a ocorrência de enormes rochas e paredões de arenito.

Há 250 milhões de anos, no centro leste da América do Sul estendia-se um grande deserto - maior do que o Saara. Fala-se da Era Mesozóica, quando os dinossauros dominavam a fauna terrestre.

Nesse tempo houve grandes erupções vulcânicas, resultante da movimentação da crosta terrestre e das placas tectônicas. E as lavas vulcânicas derramaram-se sobre as areias do deserto, encobrindo-o quase por completo.

Depois de resfriadas, as lavas viraram camadas de basalto de até 1.500 metros de espessura. Com isso as areias do deserto foram compactadas, transformando-as em rochas de arenito.

Com as espessas nuvens de cinzas dos vulcões encobrindo a superfície do antigo deserto, sucedeu-se o período glacial. Milhões de anos se passaram até que as geleiras começassem a derreter.

Com o processo de derretimento, o arenito compactado recebeu as primeiras águas, formando-se então imenso reservatório de água subterrânea hoje conhecido por Aqüífero Guarani. Reservatório de água doce renovável que concentra cerca de 80% da água da Bacia Geológica do Paraná.

O derretimento das geleiras também provocou a erosão das rochas e do solo, deixando à mostra parte do arenito, isto é, as bordas do Aqüífero Guarani. Nos milhões de anos seguintes, até os dias de hoje, as chuvas passaram a alimentar a monumental rede fluvial subterrânea.

 

 

 

Proporções do Aqüífero

 

Com área de 1,2 milhão de km2, equivalente aos territórios da Espanha e França, o Guarani é o maior aqüífero do mundo, abrangendo áreas da Argentina (255 mil km2), Paraguai (58,5 mil km2), Uruguai (58 mil km2) e Brasil (840 mil km2). Com dois terços da área total no Brasil, este aqüífero sedo Brasil, onde se estende pelos estados do: RS, SC, PR, MS, MT, SP, MG e GO (10% do território nacional).

O volume de água, 45 mil km3, daria para encher um lago do tamanho do Uruguai, com 200 metros de profundidade, ou 1,5 milhão de lagos iguais aos da represa de Itaipu. Das bordas para o centro, as águas do Aqüífero estão em estado de confinamento, recobertas por camadas de rochas vulcânicas. Aí o sistema é artesiano. Elas também se encontram em bolsões isolados e neste caso a água não se renova.

As águas do Aqüífero Guarani podem ser extraídas a partir de uma profundidade que vai de 50 até aproximadamente 500 metros. Não se trata, pois, de um mar, rio ou lago subterrâneo, mas de água concentrada na rocha, dentro do arenito. Isto é possível porque o arenito, nada mais é do que a areia de deserto compactada. Sendo assim, os espaços entre os grãos arredondados de areia cedem lugar à água.

Feito um corte geológico das camadas da Bacia do Paraná, o reservatório subterrâneo apresenta-se em forma de arco. Numa visão tridimensional adquire o formato de uma bacia. De leste a oeste do território brasileiro vai se aprofundando cada vez mais. Na região do Mato Grosso o arenito chega a ter 800 metros de espessura.

As areias do Botucatu, uma vez compactadas pelas lavas vulcânicas, depositaram-se abaixo do basalto e outros sedimentos, e acima das rochas sedimentares da Era Paleozóica formadas entre 542 a 251 milhões de anos. Permanecem ao longo do tempo prensadas como que em meio a um sanduíche geológico que é a Bacia Sedimentar do Paraná.

Afloradas a superfície, as bordas do aqüífero são as antigas áreas desérticas não atingidas pelas lavas dos vulcões. O arenito se formou pelo processo de compactação, pelo aquecimento vulcânico em proporções fenomenais ou pela ação dos ventos – arenito eólico.

  

Áreas de Recarga

 

Na região de Lages as áreas de recarga (captação pluvial) são formadas por grossas camadas de arenito que podem chegar a 130 metros de espessura. Seja em Lages, ou em outras áreas de ocorrência, localizam-se na periferia da Bacia Sedimentar do Paraná. Surgem em Porto União, no norte do Estado, e alcançam o município de Praia Grande, ao sul, na divisa com o RS. Ocupam 49 mil km2 do território barriga-verde, recortando o território de 30 municípios, dentre eles Lages, Painel, Rio Rufino, Bocaina do Sul, Urubici, São Joaquim, Correia Pinto, São José do Cerrito, Ponte Alta e Bom Jardim da Serra.

As áreas de recarga do Aqüífero são como as bordas de uma bacia enterrada e só elas aparecessem à superfície. Uma bacia-esponja que armazena água da chuva. Desta forma, quando excede a capacidade de armazenamento, á água é expelida de volta à superfície, contribuindo assim para o abastecimento de rios, lagos e a formação de fontes. Já em épocas de seca, os rios passam a alimentar o reservatório subterrâneo. Onde isto ocorre, há interação de áreas de recarga e descarga da bacia.

Em Lages, no Morro Grande, a exploração de arenito, revelou uma das inúmeras áreas de descarga do Aqüífero, onde as águas subterrâneas são despejadas diretamente no leito do rio Caveiras, que cruza por área limítrofe.

Em Lages as águas do aqüífero e as águas superficiais formam uma conexão, daí a explicação referente à grande capacidade de vazão de água dos rios locais, entre eles o Caveiras e o Lavatudo, em épocas de estiagem prolongada.

 

Projetos Governamentais

 

Projeto de Proteção Ambiental de Desenvolvimento Sustentável do Sistema Aqüífero Guarani, criado na década de 2.000, reuniu os governos do Brasil, Uruguai, Paraguai e Argentina e em colaboração com o Fundo Mundial para o Meio Ambiente (GEF), Banco Mundial e OEA. A OEA atuou como executora internacional, trabalhando integrada às quatro agências executoras nacionais dos quatro países. A Secretaria Geral do Projeto estava inicialmente sediada em Montevidéo. No Brasil existem existiram núcleos de trabalho, um deles em SC.

O Planejamento das ações de gestão compreendiam o conhecimento geológico estrutural, geoquímico e geofísico. Avaliações de áreas de recarga e descarga, vulnerabilidade e risco de degradação, e monitoramento de poços. Foram feitos mapas georeferenciais integrados, utilizando-se um único sistema de informações geográficas e o resultado disso são mapas sincronizados em escalas de 1: 250 mil e 1: 3 milhões. 

Os estudos tinham por objetivo a gestão dos recursos hídricos, o controle e fiscalização da exploração e o consumo de água. Hoje o volume para consumo é calculado em 80 km3 por ano (capacidade de recarga do aqüífero).

 

 

Inspirado no governo gaúcho, o governo barriga-verde criou em 2004 o Programa de Desenvolvimento Sustentável da Bacia do Rio Uruguai e Aqüífero Guarani. Nada mais legítimo, se levado em conta que a Bacia do Rio Uruguai, assim como o Guarani, tem ocorrência em áreas territoriais do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. 

Ainda na década de 2.000, liberou-se verba de 1,2 milhão de dólares, dinheiro japonês, para utilização em pesquisa e mapeamento geológico das áreas de afloramento do aqüífero, objetivando criar uma base institucional forte e integrada, capaz de planejar o desenvolvimento sustentável de ambos os mananciais de água. Isto através da geração de informações básicas e de critérios que orientem o uso adequado do solo, águas e florestas.

Identificar “os vetores de poluição” e promover “educação ambiental e extensão rural com vistas à mudança de atitude das pessoas” completava as diretrizes do programa. Assim como a elaboração de plano diretor das áreas de recarga, estabelecendo normas para o uso sustentável da bacia hidrográfica e do aqüífero.

Previa-se a criação de grupos de trabalho compostos por técnicos das antigas Secretarias de Desenvolvimento Regionais (SDRs), das prefeituras, universidades, ONGs, Programas Microbacias II, Faesc, Fetaesc, Casan, Fatma, Comitês de Bacias, Epagri e Ciram. Com ações descentralizadas e grupos de trabalho coordenados e gerenciados pelo Conselho Diretor do programa, através de Secretaria Executiva.

  

Estudos científicos-institucionais

 

Alguns outros trabalhos são desenvolvidos por universidades e centros de pesquisas brasileiros. Na UFPR são seis projetos (dissertações e teses). A Companhia de Pesquisa em Recursos Minerais (CRPM), do Ministério de Minas e Energia e a Universidade de São Paulo (USP) também desenvolvem pesquisas e estudos sobre o Guarani.

 

Sob a coordenação do professor e doutor Rômulo Machado (USP) e com a participação do geólogo Elvo Fassbinder (UFPR), realizou-se em Lages, de 2003 a 2006, trabalho de campo para elaboração de mapa geológico, geotécnico e de ocupação do meio-físico (solo urbano), com o objetivo de delimitar as áreas de recarga do Aqüífero Guarani. Toda a região urbana de Lages foi mapeada em relação à ocorrência das camadas de arenito Botucatu. Esta carta geográfica engloba uma área de 200 quilômetros quadrados.

 

Segundo o geólogo Rômulo Machado o mapa de ocupação do solo é exigido das cidades com mais de 20 mil habitantes, em função da elaboração do Plano Diretor. Exigência do Ministério das Cidades (Lei Federal de outubro de 2001). Foram colhidas amostras de rochas para serem datadas através do método Ar/Ar (Argônio/Argônio), por radiação, implantado pela USP e que permite datação a partir da unidade ‘milhão de ano.

 

 

 

Alerta à preservação do rico manancial

  

O geólogo Rômulo Machado, da USP, alerta sobre o nível de degradação do Aqüífero, com especial atenção para as áreas de risco de poluição das águas. Ele se baseia nos estudos da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), apontando que em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, onde o abastecimento da população é feito quase que exclusivamente a partir do Aqüífero Guarani, a super-exploração provoca rebaixamento do lençol freático, e o nível de contaminação por agrotóxicos utilizados nas lavouras atinge 80%, próximo do limite considerado perigoso para a saúde humana.

As áreas de risco já detectadas são: Próximo às nascentes do rio Araguaia, no Brasil Central, na região limítrofe entre Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, atribuído ao cultivo intensivo de soja, milho e algodão, ou em áreas do interior do Paraná, com cultivo de milho, em Santa Catarina, na região de Lages, pelos pomares de maçã, e no Rio Grande do Sul, na região de Alegrete, pelas lavouras de arroz irrigado.

 

Também em Lages, a exploração de pedra grés (arenito), que já foi muito utilizada na construção civil e que hoje serve mais como pedra decorativa, soma-se às ações que degradam as áreas de recarga e descarga do Guarani. Outro vetor poluente local é a contaminação gerada pela falta de redes de saneamento básico. Bairros inteiros e toda uma área industrial estão sobre as áreas de recarga.

 

Outra fonte de poluição que começa a preocupar os estudiosos e especialistas em geologia, engenharia florestal e agronomia é o reflorestamento de pinnus e demais espécies exóticas. Eles dizem que o pinnus cresce mais no sul do Brasil do que na América do Norte, de onde é originário, porque aqui sua raiz encontra mais água. E água abundante do aqüífero. Uma legislação ambiental mais rígida que discipline esta verdadeira “sanguessunga verde” é reclamada por estes especialistas da área de solos.

 

Diante deste quadro, a conclusão é a seguinte: Se hoje uma garrafinha de água mineral é vendida a R$ 1,00 imaginem quantos litros de água pura uma árvore (pinnus) consome até a sua idade adulta - de 12 a 20 anos em média? O rico negócio florestal está sendo financiado diretamente pelo aqüífero e todos nós subsidiamos o negócio. E o custo é alto, com certeza.

 

 

Principais causas de degradação do Aqüífero Guarani

 

Superexploração dos poços em algumas regiões

Abertura de poços sem a devida orientação técnico-ambiental

Dejetos industriais e residenciais lançados diretamente nos rios ou nos solos

Lixões ou aterros sanitários instalados de forma imprópria

Dejetos gerados pela suinocultura e avicultura, altamente poluentes

Falta de saneamento básico – esgotamento sanitário nas cidades e áreas rurais

Desmatamento e avanço de áreas de lavouras cultivadas com uso de agrotóxicos

Florestamento com espécies exóticas (pinnus e eucalipto) que provoca o rebaixamento do lençol freático e a contaminação do solo por fenóis

Atividades industriais, comerciais e de prestação de serviços que poluem as águas e o subsolo

  

Área superficial do planeta: 

70,7% é água

29,3% é terra 

Onde se encontra a água: 

97,5% nos mares

2,5% é água doce, sendo:

 

29,9% nos aqüíferos (subterrâneas)

68,9% nas calotas polares e geleiras

  0,9% nos pântanos, solos gelados, umidade dos solos

  0,3% nos rios e lagos

 

Leia abaixo considerações do geólogo e professor da UFPR, Ernani da Rosa Filho, sobre o Aquífero Guaraní: 

“Se os governos estaduais utilizassem a potencialidade do Guarani o sul do Brasil não sofreria tanto com as secas. No Paraná o governo já despertou para o problema e perfurou poços em dezenas de cidades para o abastecimento da população”. 

“Em virtude das muitas características do aqüífero, ele é economicamente interessante. A água chega a superfície em altas temperaturas (33 a 65º C) e pode ser utilizada em indústrias, na prevenção de geadas, em hospitais e no turismo hidromineral”. 

“O aproveitamento da água depende do uso de tecnologia. Se nem todos os poços perfurados do Guarani dão acesso à água potável, conforme a demanda de consumo seria possível aplicar técnicas de dessalinização”.

 

“O programa de pesquisa financiado pelo Fundo de Desenvolvimento da Bacia do Prata (Fonplata), em convênio com o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (Bird) e os governos de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai”.

 

“A doação de R$ 14 milhões, por organismo internacional, para estudos e pesquisas sobre o Aqüífero Guarani foi condicionada a limitação das pesquisas por empresas dos Estados Unidos, Canadá, Europa, Israel e Japão. Vivemos sobre o aqüífero e temos mais tecnologia para explorá-lo. Mas o compromisso foi assumido pelo governo brasileiro e estamos de mãos-atadas. A submissão dos governos latinos aos termos do acordo prejudicou seriamente o trabalho dos cientistas locais”.  

Uma riqueza de tamanha proporção e que desperta interesses escusos internacionais tem que ser preservada e defendida permanentemente. O uso do aqüífero, embora seja ele transfronteiriço, terá que ser gerenciado e monitorado pelos países que o detêm em seus subsolos territoriais. A questão é estratégica para o Brasil, Paraguai, Uruguai e Argentina. Isso não impede que a água do aqüífero possa servir outros países interessados, mas dentro de critérios legalmente democráticos. Portanto, há que se atentar para o perigo deste manancial servir de objeto de conflitos e guerras. Já temos exemplos inaceitáveis de guerras de domínios territoriais motivados pelo controle de fontes de águas e de jazidas de petróleo. Vejamos, pois, o caso de domínio israelense sobre as Colinas de Golã de onde afloram as principais fontes de água doce do Oriente Médio.

 

 

 

 

 

 

Reportagem _ Iran Rosa de Moraes

Fotos _ Gugu Garcia