Assumi a missão de entrevistar Guille Thomazi, escritor lageano de 34 anos, que está com um novo livro saindo do forno. Sua primeira obra literária Gado Novo (Editora 7 Letras, 2013), que tem uma incrível história que se passa no Centro-Oeste brasileiro, caiu nas graças do cineasta Beto Brant e vai virar filme, com música tema já composta pelo ator e músico Daniel de Oliveira, que também deverá interpretar o vilão da história. Guille lança agora Segure Minha Mão (Editora Patuá, 2020) e, é claro, antes de conversar com ele li ambas obras e confesso que fui arrebatada por seus livros. Pensem num livro fascinante, de tirar o fôlego, daqueles que a gente não quer parar de ler. Bem, vou deixar que o renomado escritor gaúcho Daniel Galera comente um pouco mais desta apaixonante história que se passa no leste europeu e tem como herói Olek, um personagem surpreendente...

 

 “No início do século 20, percorrendo um território russo arrasado por guerras, um homem busca o paradeiro da sua mulher, que fugiu de casa logo após dar à luz uma menina. A premissa poderia descrever um romance histórico típico, no qual os fatos e fronteiras da realidade servem de pano de fundo às aventuras do protagonista. Mas este não é um romance típico. Guille Thomazi já havia demonstrado no livro de estreia, Gado novo, uma inclinação às narrativas ominosas e psicologicamente densas, de matriz faulkneriana. Suas frases curtas, pacientes e irredutíveis, que abusam da repetição como ferramenta retórica, são como marteladas enfiando um prego em pedra dura. Naquele livro, a história estava situada no centro-oeste brasileiro e era narrada a partir de múltiplos pontos de vista. Em Segure minha mão, o autor não apenas dobra a aposta em seu estilo ferrenho, mas também procura desenvolver um projeto bem mais estranho e ambicioso. A terra estrangeira que serve de palco à trama tem algo de fantasioso. O conflito polaco-russo retratado no livro se inspira em episódios históricos, mas apenas para construir uma outra guerra, mítica e fictícia, que se desdobra numa série atordoante de cenas de destruição e violência. É nesse território alegórico da insanidade bélica da modernidade que o protagonista do livro, Olek, empreende sua jornada impressionante. O mundo criado por Thomazi lhe permite arremessar seu herói contra um antagonista maior que a vida. A insistência de Olek contra obstáculos incessantes e aparentemente intransponíveis delineia sua busca por uma espécie de justiça do afeto. Os males do mundo encontram justa oposição no amor pela família e numa abnegação que beira o martírio. Há ecos do sulismo gótico de William Faulkner e Cormac McCarthy aqui. Mas Thomazi é original em tentar levar a poética da brutalidade encontrada nesses autores a uma espécie de paroxismo estético, no qual a técnica e o engenho humano se contrapõem à essência selvagem e à carne mortal dos seres vivos. O corpo de Olek é quebrado, perfurado e rasgado por lobos, homens, projéteis e estilhaços. A redenção pelo sangue suscita simbolismos primitivos e religiosos. O corolário supremo, diz o narrador, é “sobreviver acima de tudo, não importa o quê”. Mas a questão é também sobreviver para quê. A luz de um olhar, um último toque antes da morte, um aceno de honra em meio à indecência. Segure minha mão é um romance arriscado, obsessivo e audacioso em sua busca por intensidade. Tem algo de insólito, mas é ao mesmo tempo fundamentado numa solidez radical. A fisicalidade de cada detalhe da narrativa produz um acúmulo hipnótico. Talvez não seja uma experiência para todos. Mas sem dúvida é única, e construída com o rigor e a determinação que definem um grande escritor. - Daniel Galera”

 

 

Como foi que surgiu Segure Minha Mão?

De um estalo, quando eu estava no Mato Grasso do Sul, sozinho no meio do campo (com os sentidos em convalescência após longo período de atrito com a vida urbana) à sombra de uma árvore, ouvindo as seriemas lamentando os filhos perdidos. A primeira cena que escrevi foi a última. Ela é por si uma cena de forte carga emocional, que eu procurei contextualizar, criando toda a história pregressa, com todo o acúmulo de experiências, carregando-a de tantos significados e símbolos, para que aquele momento alcançasse o máximo de potência emocional. E que gerasse uma emoção catártica, verdadeira, e pudesse ser compreendida por qualquer pessoa.

 

Como alguém que para responder sim ou não acaba contando uma história para explicar a resposta que ainda vai dar...

Por aí, mais ou menos isso. Em ambas situações se conta uma história para explicar, contextualizar e no fim justificar. De certo modo escrevi o livro todo para justificar uma cena. E já que estamos fazendo analogias, é também como se no velório de alguém buscássemos entender, a partir da leitura dos enlutados, como foi sua vida. Buscamos ler nas emoções das pessoas ali e nas porções de pequenas histórias contadas a respeito do finado (todas elas imprecisas) como foi sua vida, de modo que também engendremos nossa própria emoção a respeito dele, ao estarmos ali, testemunhando o fim de seu ciclo.

 

Seu primeiro livro, Gado Novo, tem sua história contada no centro-oeste brasileiro. Já Segure Minha Mão é ambientado num leste europeu arrasado por guerras, no início do século passado. Por quê?

Bem, tanto um quanto outro tratam de temas universais, e poderiam ser ambientados em diferentes lugares. A opção espaço-temporal traz suas razões, é claro, e no caso de Segure minha mão, há um amálgama de elementos culturais e históricos com os quais me interessou trabalhar. Se fosse discorrer com profundidade por aqui tomaria muito espaço desta entrevista, mas centrando-me num aspecto: a milenar perseguição a minorias étnicas que são obrigadas a se adaptar aos tempos e aos lugares para onde são empurradas, de modo a sobreviver.

 

Neste caso essas pessoas são representadas pela família de Olek...

Exatamente. Na bíblia, um livro profundamente simbólico e figurativo, maravilhoso sob diversas óticas, dentre elas o prisma histórico e filosófico, há a bela passagem (livro de Mateus) na qual Jesus, referindo-se aqueles que resistem e sofrem sem perder as virtudes, exaltando-lhes a resiliência moral, diz: “Vós sois o sal da terra”. E Olek é o arquétipo do herói clássico, é um personagem de absoluta integridade moral, seus princípios não são alterados pelas circunstâncias brutais pelas quais é constantemente capturado. As circunstâncias não o mudam, ele é quem se adapta e altera as circunstâncias, conservando suas virtudes. Um protagonista que representa a honestidade, a bondade e a decência. Ele é o sal da terra.   

  

Como foi escrever um livro tão cheio de ação e emoção?

O propósito é sempre a busca pela emoção sincera, aquela que se expressa a partir dos sentimentos, -Que são individuais e subjetivos. Sabe por que as pessoas gostam de ser as portadoras de notícias, principalmente as crianças (repare, sempre que puder no anseio que as crianças têm em dar uma notícia)? A onda de emoção inicial expressa no rosto de quem ouve é invariavelmente a verdadeira. A emoção real é uma enorme recompensa para o ser humano. Todos nós buscamos isso nas pessoas ao nosso redor. Num mundo saturado pelo mercado de emoções baratas, dissimulações e falsidades em geral, a emoção verdadeira tem um valor ainda mais precioso, pois nos dá noções de sentido e propósito à vida.

 

E quanto a surpreendente capa do Segure Minha Mão, como ela surgiu?

Depois de pesquisas em acervos históricos encontrei esta fotografia de oitenta anos atrás. Assim como em Gado Novo, a capa foi uma escolha minha, e assumi a negociação diretamente com a agência inglesa que detém os direitos sobre a imagem (a editora Patuá investe integralmente no projeto do Segure Minha Mão). A fotografia foi colorizada artificialmente pela colorista mineira radicada em Londres Marina Amaral, especializada em colorização de fotografias históricas (vale muito a pena dar um Google). Ela é renomada no exterior, mas por enquanto quase desconhecida no Brasil. Realizou um extraordinário trabalho para o museu de Auschwitz, colorindo imagens de prisioneiros (resgatadas de arquivos que as próprias vítimas conseguiram esconder no fim da guerra quando nazistas tentavam apagar as provas de seus crimes). Marina Amaral acaba de conceder uma entrevista para a revista Veja, na qual revela ser autista. Agora, em Segure Minha Mão, pela primeira vez outra pessoa utiliza trabalho seu para a capa de um livro.

 

Vamos falar um pouco da sua primeira obra: Gado Novo. Você foi procurado por Beto Brant, consagrado diretor de cinema, para juntos ao também consagrado escritor Marçal Aquino roteirizarem o livro, para que vire filme. Como vai este projeto?

Já estivemos no Mato Grosso do Sul algumas vezes e também em São Paulo. Ainda na primeira viagem Beto escreveu para Júlio Andrade (Sob Pressão, Et cétera), que topou seu o protagonista, a partir daí passamos a trabalhar o roteiro com ele em mente. A produtora Drama Filmes desenvolveu o projeto, que se encontra parado, em função da séria crise fiscal e econômica na qual o país se encontra, algo que afeta gravemente o setor audiovisual, - Que precisa captar recursos para se financiar, o que é um processo longo e penoso (ainda mais para um filme de valor artístico e não comercial, como é o caso de Gado Novo). No fim do ano passado Beto esteve com uma equipe de produção fazendo testes de câmera, estudo de logística e técnicas em geral (gravação com drone, inclusive, que ficou maravilhosa), mas de lá para cá nada avançou. A não ser Daniel de Oliveira, que depois de mostrar enorme talento cantando ao interpretar Cazuza no cinema (ele tem sua própria banda), compôs uma música para o filme, e está prestes a lançá-la em clipe. Gostou muito do projeto e pediu para ser o antagonista. Antes que possamos ver o filme realizado, e isso leva anos, vale a pena acompanhar Daniel na web, logo veremos ali sua homenagem ao filme que ainda não nasceu. 

Texto _ Carla Reche

Fotos _ Gugu Garcia