Um dos maiores defensores do desenvolvimento turístico da Serra Catarinense. Idealizador do Projeto Caminho das Tropas, que visa criar uma rota de visitação a diversos monumentos na região. Possui mais de 300 obras espalhadas pelo mundo, sempre abordando temas tradicionalistas, em sua maioria.

 

Provavelmente você nem saiba, mas já esbarrou com alguma obra dele. Talvez até tenha algum registro em suas belíssimas esculturas.

José Cristóvão Batista, nascido em 03 de setembro de 1959, na região de Ituporanga, pai de três filhos e avô de três netos, é autor da maioria dos monumentos que enfeitam a cidade de Lages.

Boi de Botas, o Traçador de Laço, os Tropeiros, o Carro de Molas, os Imigrantes, as Lavadeiras do Tanque, São Francisco de Assis. Soam familiares? São algumas das obras que contribuem tanto para a história de nossa cidade, 100% autorais de seu Batista.

O tema tradicionalista sempre foi muito presente na vida dele, pois resgata lembranças da infância, quando presenciou a passagem dos tropeiros por Santa Catarina.

Lageano de coração, veio embora aos doze anos de idade, onde construiu família e a maior parte de suas obras. Em entrevista ele conta sobre como começou a carreira, relembra a infância, fala um pouco sobre suas inspirações e projetos. Confira:

 

Como se tornou artista? Tem alguma formação?

 

Eu sou autodidata, nunca tive formação em nada. Quando eu tinha cinco anos de idade, meu pai era agricultor e fazia roça na beira dos rios, e eu o acompanhava. As vezes ele saía para o mato e tirava mel das abelhas silvestres, e trazia a cera, que é bem flexível igual uma massinha. Ele dava para eu e para os meus irmãos brincarmos e ensinava a gente a fazer brinquedos com esse material.

Então foi a partir da necessidade, junto com a vocação e com o dom que fez com que a gente construísse os próprios brinquedos. A partir daí que eu comecei a ter vontade de fazer esculturas. Eu gostava muito de desenho também. Não tinha lápis de cor nem tinta, a gente desenhava com carvão.

 

Então o senhor considera que tem o dom da arte?

 

O dom é uma coisa que vem de Deus. Na realidade, são duas coisas importantes: a vocação e o dom. A vocação é aquilo que você nasce sabendo fazer. E o dom, ao contrário do que todo mundo pensa, não é o que você sabe fazer, não é o teu talento. O dom chama-se persistência. De querer, de fazer, de trabalhar, de correr atrás e lutar. Então a arte depende disso aí, depende da sua vocação, do teu dom, da tua persistência, e muitas vezes da necessidade. Porque o artista que se deslumbra, ele só quer viver no glamour da arte, e a arte não é só glamour. Na realidade o verdadeiro artista nem gosta do disso, porque ele trabalha muito, não tem tempo nem para ele.

 

Como funcionava? Você olhava as coisas e tentava reproduzir?

 

As esculturas que eu conheci que me inspiraram foi O Pensador, de Rodin. Aquela escultura me chamava muito a atenção. Até tenho uma obra inspirada que é O Pensador da Coxilha. E via algumas pinturas de Van Gogh também. Então me espelhei nesses dois artistas, a técnica do Rodin com a técnica do Van Gogh. Os traços do Van Gogh são como os meus: não são perfeitos. Mas nunca ninguém me ensinou nada, sempre aprendi por conta própria. Até algumas tintas e massas que uso, eu mesmo faço.

 

Por que o senhor acha que foi mais para o lado da escultura?

 

É mais uma questão de vocação mesmo. Eu sou espirita, e eu aprendi que recebemos dons que não completamos nas vidas passadas. Dentro dessa vocação, Deus te dá o livre arbítrio de você usar ou não o dom. A tua vocação às vezes também é passar por algumas dificuldades que em vidas passados você não aproveitou. Uma das grandes frustrações que eu tinha era eu não conseguir fazer nenhuma obra do jeito que eu sei fazer de verdade. Porque tudo é em cima de prazo, de dificuldades financeiras, então eu não conseguia cobrar o preço que as obras valiam, porque tinha que baratear. As vezes olho a obra e penso: “isso ficou uma porcaria”, porque eu sei que fiz pela metade. Mas isso é uma consequência de coisas que eu fiz em vidas passadas e não aproveitei. A humildade é que faz a gente vencer todas as etapas da nossa vida.

 

[Frase] “A humildade é que faz a gente vencer todas as etapas da nossa vida”

 

Isso é muito atual. Hoje em dia vemos muitos artistas na mídia sem nenhuma humildade. A arte fez eles chegarem onde estão, mas agora a arte é o de menos. O senhor concorda?

 

Isso é ingratidão. E foi isso que aconteceu comigo em vidas passadas. Eu não fiz certo e agora estou pagando. Para se ter uma ideia, fazem vinte anos que eu estou aqui em Lages, trabalhando debaixo de sol e de chuva, porque eu ainda não consegui fazer um telhado para eu trabalhar embaixo. Já fiz quase 80 esculturas no Brasil, mas não sobrou dinheiro para fazer a estrutura. E não é fácil trabalhar debaixo de sol quente e chuva. Mas essas dificuldades não foi ninguém que colocou para mim, foi eu mesmo. Acredito que se a gente não encarar por esse lado espiritual, desiste fácil mesmo.  

 

Hoje em dia, tudo é considerado arte e está cada vez mais difícil conseguir se destacar. Qual a sua opinião sobre isso?

 

Durante muitos anos de pesquisa, eu cheguei à conclusão que até para dar luz a um filho precisa ter arte. Qualquer criação que você faça é arte. Tudo é arte. Agora, o que as pessoas não sabem é separar arte de uma obra de arte. Não sabem separar um artista plástico de um escultor, de um pintor. Artista plástico todo mundo é, todo mundo cria, o difícil é ser escultor e pintor. Então tudo que a gente faz na vida, precisamos de arte. O cidadão que come uma massa colorida e defeca colorido, por exemplo, é arte, mas não é uma obra de arte. É uma loucura da cabeça. São pessoas que querem um espaço na sociedade para encher o ego.

 

As técnicas que você utiliza é tudo criação sua?

 

Sim! Até tenho vontade de passar para frente esses conhecimentos. Dar oportunidade para outras pessoas fazerem também.

 

O senhor tem obras em outros estados e países. Como isso aconteceu? Que tipo de obras são?

 

As obras que eu tenho em outros países são obras de cerâmica. São pessoas que vieram para o Brasil e levaram. Uma delas foi o consulado italiano que esteve aqui em Lages e levou uma escultura grande. Na Festa do Pinhão eu também vendi esculturas para um pessoal que veio da China e da França. No Brasil eu perdi as contas, porque eu nunca cataloguei as obras. Eu sei que já vendi para França, Itália, China, Japão, EUA, Inglaterra, Chile e Argentina. Mas agora eu quero começar a catalogar tudo para fazer esse controle. Os outros lugares que eu vendi obras grandes aqui no Brasil (monumentos), foi a partir das que eu fiz aqui em Lages, que, apesar das dificuldades, sempre me abriram portas para vender para fora. O pessoal via os monumentos e me chamavam para fazer na cidade deles. Então eu fazia na cidade deles, e outros de outras cidades me chamavam também. A própria obra vai se vendendo, só que isso é muito mais demorado.

 

O senhor continua com as pinturas?

 

Eu parei de pintar fazem vinte anos. Porque eu comecei a desenvolver o projeto das esculturas e não consegui mais me dedicar a pintura. Mas eu ainda tenho uns três ou quatro quadros guardados no meu acervo pessoal.

 

Por que não quis investir na pintura?

 

Porque para um autodidata e pobre viver de arte já é difícil, imagina viver de pintura. A pintura é muito complicada, porque hoje em dia todo mundo pinta.

 

Já trabalhou com outras coisas além da arte?

 

Até o ano de 1998 eu sempre tive um emprego paralelo para poder me manter na arte. Eu não tinha quem me financiasse. Nunca ganhei 1 real de patrocínio, então eu mesmo tinha que me patrocinar.

Tive um jornal, quando morei no litoral catarinense. Se chamava A Tribuna da Cidade. Eu era o fotógrafo, fazia entrevistas, redigia, vendia... fazia praticamente o jornal inteiro. Depois montei uma agência de publicidade, onde eu era letrista, cartazista, fazia luminoso, talha em madeira. Também pintei vários quilômetros de muro. Trabalhei em companhia de cigarro, já vendi tinta, tecido, fumo em corda. Fiz de tudo um pouco. Tinha que sustentar a família, sempre tive que dar um jeito, mas nunca esqueci da arte. Então foi assim que eu cheguei onde cheguei.

 

Como funciona o teu processo criativo?

 

Quando é uma coisa que precisa ter um padrão de acabamento fidedigno, como um busto, eu pego fotos e reproduzo. Mas, por exemplo, os monumentos dos tropeiros eu tiro da minha imaginação. As imagens eu tiro do meu conhecimento. Busco as lembranças da minha infância, tenho gravado na memória as pessoas que passavam por onde eu morava. A fisionomia, o jeito de se vestir, o sofrimento dos animais puxando a carroça... tenho uma memória fotográfica muito boa.

 

A tua vertente é somente o tradicionalismo? Ou faz obras de outros temas?

 

Eu faço de tudo. Se me pedirem para fazer uma escultura de 2 centímetros eu faço. Se pedir uma de 100 metros eu faço também.

 

Você tem ideia de quantas obras já fez?

 

Perto de 300 obras, e aproximadamente 80 monumentos. Lembrando que um monumento é o conjunto de várias obras juntas.

 

Qual foi o primeiro monumento que você fez que está exposto aqui em Lages?

 

A primeira obra que eu fiz aqui em Lages, foi para tentar mostrar o meu trabalho. É a obra que está ao lado do Museu Thiago de Castro, o Trançador de Laço. Aquela ali eu usei material velho que eu achei em um lote. Meu irmão mais novo me emprestou dinheiro para eu comprar dois sacos de cimentos e quatro de terra. Fiz um iglu de lona, em um espaço de uns 4 metros na minha casa, e eu trabalhava debaixo daquele iglu. Precisava fazer aquela obra para mostrar como era o meu trabalho. Quando finalizei a obra, o Chico, que na época trabalhava no Correio Lageano, passou a pé pela minha casa e ficou curioso, tirou uma foto e fez uma matéria. Então eu mostrei aquele monumento para o pessoal da Fundação Cultural e vendi para eles. Eu também fazia obras menores, cruas, colocava na frente da minha casa, na sacada, para que as pessoas que passassem por ali tivessem interesse em comprar. Começou a acontecer de me comprarem as peças enquanto eu ainda estava fazendo.

 

Foi assim que começou a sua carreira aqui em Lages?

 

Eu fiz essa primeira escultura, vendi e foi feita a inauguração na Fundação Cultural. Se passou um tempo e eles sentiram necessidade de ter mais esculturas na cidade, nas novas avenidas que estavam sendo inauguradas. Em cada avenida nova era colocada uma obra. Fiz tudo a preço de custo.

 

  “Eu sou um pedreiro melhorado”

 

Em média quanto tempo demora para uma escultura ficar pronta?

 

Depende do material. Em média eu demoro uma semana para fazer uma de gesso. Quando eu faço um molde de fibra, faço a ferragem e encho o molde de concreto, levo cerca de um mês. Mas o monumento em si, quando tem imagem de pessoas, leva em torno de dois meses para ficar pronta.

 

Quais tipos de material você utiliza?

 

Eu uso da argila até o metal. Todos os materiais que for preciso trabalhar, inclusive pedra. Mas eu não pego mais serviço com pedra, porque ele não se paga. Hoje o artista que trabalha com pedra é doido de pedra mesmo. Uma obra que eu faço em uma semana em concreto demora de seis meses a um ano para fazer em pedra.

 

Hoje em dia o senhor faz troféus também. Como funciona o processo de produção?

 

Eu faço o desenho no computador e mando imprimir a laser em baixo relevo em outra cidade. Aí eu faço o molde e produzo as cópias. Alguns são feitos a mão, esculpido na massa, com moldura feita em madeira.

 

No que consiste e qual o objetivo do Projeto Caminho das Tropas?

 

Consiste em uma rota de 12 monumentos espalhados pela Serra Catarinense, mas conseguimos executar apenas 6. Queremos resgatar e renovar o turismo na região. O objetivo é fazer Lages se tornar um polo turístico. O turismo é importante porque ele preserva o ambiente. Já acontecem esses movimentos ao redor da região, em Urubici, São Joaquim, Urupema… e Lages está no centro disso tudo. O objetivo é fazer o município aproveitar todo esse movimento. Capturar todos esses turistas para dentro da cidade. Eu acho que os visitantes poderiam se hospedar em Lages, que existe uma maior oferta de restaurantes, comércio e shoppings.

 

De que forma esse projeto seria executado?

 

Dentro do projeto tem o city tour, que é direcionado aos turistas, às escolas, e aos moradores também. Consiste em: o turista entra dentro da cidade e vai para os hotéis. No dia seguinte, com o roteiro já pré-definido, o próprio hotel chama o guia turístico e faz o city tour com os visitantes. Aí vai parando no comércio, nos restaurantes, nas lojas de artesanato, para dar a possibilidade para o comércio local ganhar dinheiro. Hoje em dia até tem algumas coisas que acontecem na Coxilha Rica. Tem as cavalgadas, que na época só tinha uma e agora tem várias… então vai acontecendo, só que demora muito mais, e a gente não pode deixar demorar tanto assim, tem que ser mais rápido.

Lages já poderia ser uma cidade que ostenta muito mais visitantes o ano inteiro, com ônibus de turismo saindo e entrando o tempo todo, usufruindo de todo turismo regional. O fundamento principal do projeto é tornar a cidade um polo de captação e distribuição turística. Lages só precisa manter o que tem aqui, colocar mais alguns portais, uns monumentos para deixar a cidade ainda mais bonita e o resto já está tudo pronto, a natureza nos deu tudo de presente.

 

Tem planos para continuar com o projeto?

 

Sim! Estou batalhando. Vamos tentar pegar incentivos das leis de acesso à cultura, quero fazer parcerias para divulgar o trabalho e parcerias com pessoas que já estão envolvidas com projetos culturais também. Pretendo retomar as atividades no ano que vem, nem que seja por conta própria. Buscar patrocínio na iniciativa privada também é uma opção.

 

Quais são seus projetos futuros?

 

Pretendo abrir o meu ateliê para visitação. Vou criar um museu do meu acervo, já tenho até o espaço pronto. Quero dar oportunidade para outros artistas que quiserem expor também. Tenho planos de abrir uma escolinha de artes e passar para frente todo o meu conhecimento.

 

O que o senhor espera da sua profissão?

 

Que minha profissão sirva para ajudar os outros também. Eu vivi a minha vida toda inventando coisas que já existiam, por não ter tido acesso. Por isso que eu quero criar a galeria, a escola de artes, ensinar as técnicas de como fazer as esculturas.

 

Tem alguma curiosidade sobre algum monumento?

 

No monumento dos Imigrantes, que está exposto no Coral, faltavam três dias para a inauguração e as imagens do homem e a mulher não tinham a cabeça. Pensei: “como vou esculpir duas cabeças em três dias? ”, porque o cimento é demorado. Acabei usando o gesso. Fiz em quatro partes e depois juntei tudo e enchi de concreto. No dia da inauguração ainda não tinha secado totalmente.

 

Qual monumento o senhor mais gosta?

 

Esse mesmo monumento dos Imigrantes, porque eu me coloquei nele. O homem é a imagem do meu pai, a mulher é da minha mãe, eu estou dentro do cesto e o meu irmão mais novo está no colo da minha mãe. O São Francisco de Assis, do convento, também, porque eu me inspirei em mim mesmo, todo mundo fala que se parece muito comigo.

 

Qual conselho daria para quem está começando no mundo da arte?

 

Acho que o segredo para se dar bem é sempre ter muitos projetos, nem que não consiga realizar todos. Porque num momento de dificuldade você sempre tem um Plano B. O homem de um projeto só, é um homem fracassado.

 

“Sou formado pela faculdade da vida”

 

Texto _ Nathalia Lima

Foto _ Gugu Garcia