O ser humano – na longa e tortuosa caminhada pela superfície da terra devastada – esperou 600 mil anos para chegar ao número de seis bilhões de habitantes. No entanto, agora sabemos que bastam trinta anos para que tal cifra seja duplicada. E mais alguns poucos, para que ela seja triplicada.

 

     E dentro de 600 anos, se o atual ritmo de crescimento se mantiver, o número de seres humanos será tão grande que cada indivíduo terá apenas um metro quadrado da superfície do planeta para se espreguiçar.

 

     E obvio que jamais chegaremos a isso. Mas a matemática existe e o problema demográfico em breve se transformará na maior questão entre os homens (e as nações) que já estão recorrendo a soluções paliativas tais como “marcha das cidades para o campo”, guerras agrárias, imigração em massa, ocupação dos vazios demográficos como a Amazônia etc.

 

     Thomas Robert Malthus foi o primeiro a alertar para o assunto, em 1798 (quando a terra tinha ainda dois bilhões de habitantes), em sua obra clássica “Essay on the Principle of Population”, livro tão maldito quanto mal entendido, até pelo fato de causar mal-estar. E cuja tese central é a de que a massa da população aumentará em maior proporção e rapidez que a massa de alimentos necessários – mesmo que não ocorram catástrofes naturais a alterações climáticas.

 

     Posteriormente, economistas de peso como Adan Smith, Bentham, Stuart Mill e J. B. Say viriam a concordar com Malthus, em linhas gerais.

 

     Mas jamais admitiriam essas teses ponderáveis da direção popular: a vertente dos socialistas utópicos.

 

     Mas é com o surgimento da ecologia como ciência e o aparecimento do ecologista como força política que se prova que o excesso da população não apenas poderá levar à fome, mas também destruir flora e fauna, solos e rios, ecossistemas e nichos ecológicos, estuários e costas marítimas, empestando terra, mar e ar.  Provocando secas e furacões.

 

     E mais: pobreza e fome endêmica, desertificações e poluição das águas não impedem a multiplicação da espécie humana – embora doenças provocadas pelas carências alimentares certamente venham contribuir para a diminuição das resistências orgânicas e dos sistemas imunológicos, levantando a bandeira das epidemias de massa, agravadas pela promiscuidade.

 

     Além disso, a questão demográfica não se relaciona apenas com alimentos e ecologia. Ela envolve também aumento incomensurável dos transportes, dos sistemas sanitários, hospitalares, escolares e até políticos.

 

     Formigueiros humanos como Tóquio, Londres, Nova York, Rio de Janeiro, São Paulo, México, serão problemáticos e violentos.

 

     Minúsculos apartamentos e casa, longe dos locais de trabalho, lembrarão o retorno às cavernas... Só que o deslocamento das massas humanas para fugir das catástrofes que se anunciam será impossível...

 

Paulo Ramos Derengoski

 

Texto publicado na Revista Visão #163 (Dez/Jan 2021)