Quem ama cuida, costuma-se dizer quando o assunto é relacionamento conjugal, porém isso também pode se enquadrar neste caso, específico, de um caminhoneiro e seu caminhão

 

Mais do que uma ferramenta de trabalho, o caminhão para o seu Ivo Antonio Claumann está intimamente ligado à sua vida pessoal, à suas emoções e perspectivas de vida, “está na veia”, vamos dizer.

Tanto é assim que seu Ivo, cuida do seu veículo de trabalho e passeio (“também”) de uma forma muito técnica e carinhosa ao mesmo tempo, tem até pitada de ciúme, se isso pode ser caracterizado, por exemplo, ao cuidado que o caminhoneiro tem em evitar que alguém pise nos estribos cromados do veículo.

Por outro lado, entende-se esse cuidado todo, pois somente o para-choque cromado, instalado na cidade de São Marcos-RS, conhecida como a cidade dos caminhoneiros, custou ao dono nada menos do que R$ 3.800,00.

Todo iluminado com lâmpadas led, tanto na parte externa como interna, destaca-se ainda o conjunto de acessórios: TV, Cama King Size, DVD, Rádio PX. Assim como as cores de todas as peças do motor do veículo se destacam em amarelo, vermelho e preto.

É o seu Ivo que faz a revisão geral e periódica do Scania Truck, ano 1975 e modelo L 110 (nos documentos), mas todo modificado para 111 S. “O motor, a caixa e diferencial, é de um 112 e assim ele ganha em potência e durabilidade”, fala o motorista sobre o veículo que dirige já há 10 anos. “Igual esse (Scania truck modificado) têm pouco mais de 100 no Brasil, acredito”, acrescenta Ivo Claumann.

Ele diz de sempre gostou de enfeitar os carros que teve. O primeiro foi um fusca. E quando alguém comenta: então você não usa o caminhão para trabalhar...só para passear.” Também (para passear)”, respondo.

Ele conta que por onde vai, o caminhão “chama muito atenção”, sendo fotografado e admirado. “Já participei de algumas exposições de caminhões, mas sempre trabalhando, com o caminhão carregado”.

Diante das perguntas: O senhor venderia o seu caminhão? Qual é o valor dele? seu Ivo fica pensativo e pondera: “Tiro a bóia daqui, fica difícil...mas depende das conversar, como se diz”, responde, deixando aberta a possibilidade de venda do veículo que tanto cuida e conserva em pleno funcionamento.

 

História de Vida

Seu Ivo é filho de caminhoneiro. Seu pai viajou durante 52 anos, e, quando menino e adolescente, foi junto algumas vezes. Começou a trabalhar aos 12 anos na extinta Casa do Carburador, no bairro Coral. Já aos 16 anos abriu oficina própria, em Bom Retiro, tornando-se técnico em regulagem de motor de automóvel. Com 20 anos, na década de 1980, comprou o primeiro caminhão uma Alfa Romeo, com o qual transportava até 52 dúzias de madeira por carga.

Por duas vezes foi assaltado, durante parada em estacionamento, para pernoite. E uma delas levaram todo o “saldo de frete” mais pertences. No entanto, o que mais aborrece e desestimula o caminhoneiro, segundo fala seu Ivo, é a falta de valorização da profissão.

“Hoje poucos autônomos sobrevivem na atividade. Existe a concorrência com as empresas transportadoras. Enquanto elas têm carga praticamente todo o dia, nós autônomos ficamos até uma semana parado esperando novo frete. Além disso o custo da viagem é muito alto.

Por um tempo, ao longo dos 40 anos de estrada, transportando carga pesada, foi motorista de ônibus e instrutor em uma transportadora. No entanto, logo voltaria a atividade de caminhoneiro na qual está até hoje.

Aos 60 anos, seu Ivo não se aposentou ainda, e, portanto, sobrevive dos fretes que faz com o “Jacaré”, apelido do 111 S. “Só irei me aposentar daqui quatro anos, pois fiquei uns cinco anos sem pagar o INSS, nos anos iniciais como caminhoneiro, pois precisava priorizar as despesas familiares. O meu caminhão ainda é meu ganha pão”, conta.

 

Texto _ Iran Moraes

Foto_ Gugu Garcia