Trabalho feito pela FCC e Iphan, inventariou os bens móveis sacros de 12 templos religiosos de Santa Catarina, todos eles protegidos pela Lei de Tombamento Estadual

 

 

   Em 8 de dezembro de 1999, era lançada a Carta Magna Sobre o Inventário/Catálogo dos Bens Culturais da Igreja, numa iniciativa da Pontifícia Comissão para os Bens Culturais da Igreja instituída pelo Papa João Paulo II. Essa carta ressaltava a necessidade e urgência desta inventariação e catalogação.

E foi a partir daí que, em meados da década de 2010, o Ateliê de Conservação-Restauração de Bens Culturais Móveis (Atecor), da Fundação Catarinense de Cultura (FCC), se propôs a realizar o inventário de bens móveis sacros de Igrejas reconhecidas como patrimônio Cultural do Estado de Santa Catarina. Doze Igrejas foram inventariadas, inicialmente, entre as quais a Catedral Diocesana de Lages.

   Na avaliação do então superintendente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em SC, Ulisses Munarim, “a integração entre as imagens sacras e a arquitetura está intimamente ligada ao modo de uma comunidade vivenciar seu espaço de culto, quando não pela sua lavra artística, o simples fato de determinada peça estar associada a um templo há tempos, tendo seu valor reconhecido pela veneração daqueles que o frequentam, é motivo suficiente em sua proteção”.

   Munarim disse que “peças de arte-sacra, devido as suas pequenas dimensões e à fragilidade de sua matéria, são vítimas do tráfico ilícito de obras de arte e do desgaste pelo tempo”. Portanto, “os inventários de bens móveis e integrados são extremamente relevantes para garantir o conhecimento das peças existentes nas Igrejas tombadas, aumentando a eficácia da fiscalização e dos dispositivos de segurança”.

   Munarim esclarecia: “em caso de roubo ou deterioração das obras (arte-sacra), os registros pormenorizados de cada objeto auxilia nas buscas e apreensões daquelas desaparecidas, e também no trabalho de restauração das eventualmente danificadas”. Daí a importância vital do inventário dos bens culturais móveis de 12 templos religiosos, incluindo a Catedral de Lages Nossa Senhora dos Prazeres, realizado pela FCC/Iphan.

   Segundo explicação de Fátima Regina Althof, da Atecor, na segunda etapa de desenvolvimento do citado projeto “foram introduzidas outras duas categorias de bens: mobiliário e objetos litúrgicos, bem como o levantamento das características estilísticas e iconográficas, ornamentais”,

   O registro das peças de arte-sacra foi feito em fichário individual que reúne a identificação de cada obra: principais características, estado de conservação e documentação fotográfica. O fichamento individual de cada peça de arte, segundo Fátima Althof, se constitui em importante instrumento contra roubo.

   Existem em Santa Catarina cerca de 30 edificações religiosas protegidas pela Lei número 5.846 de 22 de dezembro de 1980 (de Tombamento Estadual).

 

 

Características arquitetônicas e culturais

 

   A Catedral Diocesana de Lages se destaca pela arquitetura e pelo conjunto de arte-sacra, sendo construída entre os anos 1912/1922. Até 1927 pertenceu a ordem franciscana com sede em Florianópolis, mesmo ano em que foi oficializada a criação da Diocese de Lages, através de Decreto Consistorial da Santa Sé.

   Construída em estilo gótico, em pedra de arenito, sua beleza se revela tanto externa como internamente. Logo que se entra na Catedral, sobressaem-se as naves laterais; nave central e nave do altar-mor erguida sobre pilastras, com armação de madeira enchida de estuque. As naves desta Igreja têm 10 centímetros de espessura, sendo que acima delas existe um assoalho em madeira de lei e sobre o qual se eleva o verdadeiro teto da Igreja em folhas especiais zincadas.

   O conjunto de vitrais imediatamente se revela uma obra-prima. E o que falar das pinturas sacras nas naves? Elas foram feitas em uma só mão (sem retoques), há 80 anos, utilizando-se apenas três elementos essenciais para se criar uma imagem sobre superfície de estuque: água, pigmento e cal. Sem retoques porque a cal não permite esse recurso técnico. A pintura das naves laterais possui seis tonalidades de cores e foram restauradas em 2002 sob a responsabilidade de especialista em pintura de imagem sacra.

   Em meio a inúmeras outras preciosidades existentes nesta Igreja, acha-se o órgão com mais de 1300 flautas, instrumento fabricado na cidade gaúcha de Novo Hamburgo e trazido a Lages, pelos padres, em 1960. Instalado no piso superior da Igreja, logo acima da porta de entrada, o órgão integra-se perfeitamente à acústica projetada da Catedral, de tal forma que o som da nota mais baixa se projeta com o mesmo volume até ao altar-mor e vice-versa. Uma acústica perfeita. Pura arte literalmente sonorizada.

   Percebe-se, portanto, que a Catedral é um encanto aos olhos e ouvidos e enlevo à alma de todos os fiéis.

 

 

 

Glossário

 

Bens culturais móveis – objetos, obras e elementos que podem ser retirados (deslocados ou transportados) de seus locais de ornamentação sem alteração das suas características materiais originais.

 

 

Bens integrados – São todos aqueles que de tal modo se acham vinculados à superfície construída – interna ou externa – de um bem imóvel (Costa, 2000; p. 34 e 35). Compreende-se pinturas, retábulos, esculturas, ourivesaria, cerâmica etc, “em multiplicidade de espécies materiais, técnicas e aspectos”.

 

 

 

Histórico da Catedral

 

 

   Em junho de 1912 alguns ricos fazendeiros dos campos de Lages, entre eles Henrique Ramos, o Cel. Belizário Ramos, o intelectual Thiago de Castro e o Cel. José Maria Domingues de Arruda reuniram-se para arrecadar fundos para a construção da Igreja matriz de Lages. Foi então encarregado de fazer o projeto da obra o padre alemão Frei Egydio Lother, que projetou a obra em estilo gótico-românico, hoje um dos mais belos monumentos arquitetônicos do país.

   Frey Egydio inspirou-se na planta baixa, na forma e cobertura das torres piramidais multifacetadas da primeira catedral em estilo gótico da Alemanha, a Igreja de Magdeburg, do século X.

   Construída em pedra Grés, abundante em Lages, levou 10 anos para ficar pronta e foi inaugurada no natal de 1922. Próximo então de completar seu primeiro século de vida.

   Os três sinos vieram da Alemanha e custaram 30% de todo o valor da obra. Da Alemanha vieram também as decorações internas, altares, bancos, confessionários e as imagens.

   Em 24 de dezembro de 1920, foram batizados os três sinos. O maior recebeu o nome de Cristo Salvador (tom “mi” da escala musical), pesa 1.520 Kg e o badalo 87 Kg. O médio foi nomeado como Santa Maria (tom “sol”), pesando 920 Kg e o badalo de 66 Kg. O menor se chama São Francisco (tom “lá”), que pesa 610 Kg, com badalo de 48 Kg. Conta-se que só para erguer o sinos, demorou seis meses, além dos seis que demorou para vir da Alemanha.   

   De início, chamada apenas Igreja Nossa Senhora dos Prazeres, passou a ser Catedral em 18 de outubro de 1929, (Matriz de Lajes), quando D. Daniel Hostin tornou-se o primeiro Bispo Diocesano.

 

 

 

Invocação

 

A invocação de Nossa Senhora dos Prazeres (padroeira de Lages) busca sua origem em Portugal. Os portugueses trataram de levar a imagem para várias partes do Brasil. O título Senhora dos Prazeres é o mesmo que Senhora da Alegria, Glória, Luz. A imagem existente no interior da Catedral Diocesana é de madeira, trazida pelos primeiros colonizadores dos Campos de Lages.

 

 

 Por Iran Rosa de Moraes e Volni José Garcia

  Fotos _ Gugu Garcia