O narguilé se tornou uma espécie de febre entre os jovens. Um cachimbo, que num primeiro momento pode parecer inofensivo, se difundiu rapidamente. Sua recente regulamentação, proibindo o consumo e venda para menores de idade, tornou o aparato ainda mais atraente para esse público. O que muitos não sabem são os riscos à saúde que o narguilé representa.

Conhecido também como arguile, shisha, ou ainda, hooka, esse cachimbo não tem uma história clara com relação a sua origem. A versão mais comum é a de que veio na Índia, nas regiões de fronteira com o Paquistão. Os narguilés criados nesses locais eram muito simples e rústicos, e normalmente feitos de coco e madeira.

Quem teria criado seria o médico Hakim Abul Fath, no século XVII, como um método para retirar as impurezas da fumaça. Outras evidências históricas mostram os narguilés na Pérsia e na Mesopotâmia, de onde vem o nome Narguilé, originado do persa “N?rgil”, que significa coco.

Os nomes narguilé ou narguile são os mais utilizados ao redor do mundo, como Líbano, Síria, Jordânia, Turquia, Iraque, Albânia, Grécia, Israel, Romênia e Bulgária. Em países como Egito, Bahrein, Kuwait, Marrocos, Qatar, Tunísia, Arábia Saudita, Somália e Iêmen, ele é chamado de shisha, que também tem origem persa, mas significa vidro ou garrafa.

Atualmente, é tradicionalmente utilizado em muitos países do mundo, em especial no Norte da África, Oriente Médio e Sul da Ásia. Apesar de ter suas origens na Índia, foi no Oriente Médio que ele obteve a fama e a popularidade.

 

Juventude

O público do qual o hábito tem maior apreço são os jovens. É comum o narguilé percorrer rodas de amigos no fim de semana, seja no Parque Jonas Ramos ou, até mesmo, na Avenida Presidente Vargas. Já outros grupos, procuram lugares mais tranquilos ou suas casas. E outros curtem o narguilé em festas.

O assistente técnico Jefferson Matheus começou a fumar narguilé por diversão, com os amigos, há quase sete anos. “Hoje, é mais como um hobby. Fumo por volta de 4 a 5 sessões por semana, cada uma com mais ou menos 1 hora de duração”, conta.

Matheus destaca que usa para relaxar, porém, não com o efeito, mas por causa de todo o “ritual” que envolve a preparação do narguilé, até a socialização que o cachimbo permite. “Não gosto de fumar sozinho, gosto de ter pelo menos mais uma pessoa comigo para dividir, conversar durante o tempo de sessão”.

Ele comenta que tem consciência de que como envolve a queima de tabaco, é algo prejudicial, mas também acredita que, diferente do que se fala, não é mais prejudicial que o cigarro. “O volume de fumaça em uma “puxada” no narguilé é sim, muito maior do que uma tragada de cigarro. Mas devido à alta porcentagem de nicotina e outras substâncias que um cigarro possui, ele acaba prejudicando muito mais a boca, garganta e pulmões [do que o narguilé]”, explica.

 

Um negócio

O empresário Rafael Kley, proprietário da loja RK Hookah Lounge e Tabacaria, que trabalha com esse aparato, comenta que o narguilé é difundido de forma errônea entre as pessoas. Entre as informações, Kley lembra da notícia que surgiu sobre “fumar 1 hora é igual ao uso de 100 cigarros”. “Isso viralizou nas redes sociais. O médico que falou isso, em minha opinião, deveria perder seu registro no CRM, porque não tem como comparar uma unidade de tempo, com valor unitário. Isso não tem lógica. O tempo é uma coisa dinâmica, não tem como calcular o que vou fumar em uma hora. Posso fumar pouco, posso fumar muito. Em uma roda de amigos, ninguém fuma direto”, explica.

Segundo Kley, quando se terminar de usar o narguilé, no rosh (onde fica a essência), pode se perceber que fica queimado, contendo ainda um pouco de ‘melaço’, que resseca. “As pessoas precisam entender essa diferença”, porque no cigarro o tabaco está sendo queimado. Já no narguilé ele vira cinza.

O empresário começou no ramo há nove anos, como usuário. Depois de um tempo, com a experiência, abriu a loja que vende o cachimbo, as essências, entre outros acessórios relacionados. Ele acredita que se difunde essa cultura entre os jovens por causa da socialização. “Para quem segue essa cultura, jamais pode se esquecer das raízes do Narguilé, nunca perder a humildade, companheirismo e a socialização”, acrescenta.

 

Como é feito

A versão tradicional combina tabaco aromatizado (existem diversos sabores), carvão e água em sua composição. Mas há aqueles que prefiram adicionar melaço, glicerina e outros líquidos como sucos ou bebidas alcoólicas. O cachimbo se utiliza da água para fumar. Há diferenças regionais no formato e no funcionamento. Mas o princípio comum é o mesmo: a fumaça passar pela água, antes de chegar ao fumante.

 

Saúde

Com intuito de sensibilizar a população dos malefícios causados pelo consumo do narguilé, o Instituto Nacional de Câncer (Inca) lançou uma campanha, há alguns anos, que alerta sobre o consumo e a iniciação ao fumo.

Isso porque, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), uma sessão de narguilé dura em média de 20 a 80 minutos, o que corresponde à exposição aos componentes tóxicos presentes na fumaça de 100 cigarros. Com a popularização entre os jovens desta prática, acabou virando tema da ação de combate ao tabagismo.

A médica de família e comunidade, Dra. Nicole Geovana, do Médico Responde, garante que “sim, fumar narguilé faz mal à saúde”. Segundo ela, o cachimbo reduz a capacidade respiratória, aumenta o risco de câncer de pulmão e pode criar dependência, como o cigarro, explica.

Entre os riscos que o narguilé oferece, de acordo com a médica, está: insuficiência respiratória aguda, nos casos mais graves; transmissão de doenças infectocontagiosas, como a tuberculose, uma vez que a mesma piteira é usada por todos; doenças cardiovasculares, como infarto e acidente vascular cerebral; câncer de boca e de bexiga; entre outros.

 

Proibição

Tramita na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 4431/16, que proíbe, em todo o País, a venda de produtos fumígenos (que produz fumo ou fumaça) como cachimbos, narguilés, piteiras e papel para enrolar cigarros a menores de 18 anos. A medida altera o Estatuto da Criança e do Adolescente. Atualmente, a restrição é regulamentada por normas estaduais e municipais.

O autor da proposta, deputado Antônio Bulhões (PRB-SP), comenta que os narguilés, por terem essências aromáticas, atraem muitos jovens ao tabagismo. “Se aprovado, o projeto vai sanar essa lacuna em nossa legislação, inibindo também o uso de cachimbos e cigarros artesanais para menores de idade”, diz Bulhões. O projeto ainda se encontra na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania.

 

Texto _ Revista Visão

Foto _ Divulgação