Para se perder em Lages é necessário instruções. Ao contrário dos geógrafos, que esquartejam o mundo para poder brincar com os pedaços, só é possível se perder nessa vastidão perdida no alto do Planalto Catarinense quando a conhecemos completamente: mapas, livros, fotografias, relatos, lembranças e vozes – que nos alcançam em cada esquina, nessa mistura de saudade com invenção, descompasso de quem quer descobrir a utilidade dos mistérios.

Para se perder nessa cidade espalhada pelo centro de Santa Catarina é necessário ouvir os tropeiros conduzindo as manadas de muares, os carros de bois carregados de charque, o som da água escorrendo na Cacimba, a vida transportada de lá para cá, o entreposto que sempre ficava para trás. Para se encontrar com Lages urge caminhar pelas avenidas, morar em suas casas (antigas, novas, imaginárias), desviar o olhar quando alguma ex-namorada passar no outro lado da rua, sorrir para o gato que dorme na janela, conviver com a chuva entranhada na alma – cabides onde penduramos nossas emoções e perdas.

Para se perder na cidade próxima ao rio das caveiras, é fundamental ter calor no inverno e paciência durante o outono, é preciso saber que o verão dura uma fração (talvez umas duas horas, lá pela metade de janeiro) e que a primavera é tão bonita quanto um filme com final feliz.

 Para se perder no passado histórico paulista é sempre bom ter o que lembrar (a melhor forma de manter aquecidos os afetos): sanduíches e capilé nos piqueniques no Guará, no Salto ou na gruta de São Bom Jesus, passeios no Tanque, colheitas de macela no Morro Grande, matinê nos domingos no Cine Tamoio ou no Cine Marajoara, as ruas sempre iguais no caminho diário até a escola.

Para se perder nas ruas da Lagenda (cidade lendária) urge encontrar a si mesmo nos confins da Ferrovia, do Santa Helena, na Brusque, no Coral, no Morro do Posto, no Batalhão, no Aeroporto Velho, nos novos bairros que estão rasgando a cidade em expansão.

Para se perder em Lajaica (como dizem os mais jovens), um bom roteiro é caminhar pela Hercílio Luz, a imensa planície que esconde a alma dos lageanos. Rua-síntese, quase tudo está lá, brincadeira a unir o sagrado com o profano, um tapete de variedades. Entre a igreja do Conventinho e o rio Carahá: hospital, mercado público, autoescola, hotel, museu, farmácia, ótica, prédios, garagens, bares, banca de jogo do bicho, revendedores de automóveis, salão de beleza, prostíbulo. E as lojas? Roupas, calçados, produtos umbandistas,... têm de tudo!

Em que gavetas da memória estão o Bazar Danúbio, a loja Hoepcke, o banco Inco, o Kanto Jovem de A Barateira, o Five O’clock, o Café Ouro, o Lanchik, a Magnetron, A Sua Livraria, a Cacimba Discos, o Cine poeira, a Cantina Del Nonno, o salão de bilhar do Clube 14 e mil outros lugares que se perderam no tempo?

Para se perder entre os “causos” contados diante do fogão de lenha, relembrando os tempos de antigamente, é preciso conhecer as histórias dos “irmãos” Canozzi, do tesouro enterrado no morro do Juca Prudente, da tragédia da menina Aline, dos delírios do General Leandrinho e dos prazeres oferecidos por “tia Consu”.

 

Para que o presente não se perca é necessário saber quem foi Nereu Goss, Rogério Castro, Licurgo Costa, Cesar Sartori, Nereu Ramos, Márcio Camargo Costa, Malinverni Filho, Tiuzico, Clênio Souza, Morô, Al Netto, Estevam Borges e muitos outros personagens flamejantes.

Para se perder alguma coisa, necessário é tê-la possuído um dia. Então cabe mergulhar nos momentos de glórias e decadência de uma história que muitas vezes foi resumida em pinheirais, corridas de cavalos e mulheres bonitas.

Para se perder em Lages é preciso ouvir o silêncio, se embriagar com o frio e o vento. E sentir o coração da cidade pulsando dentro do nosso peito.

 

Texto: Raul Arruda Filho

Foto Lages: Toninho Vieira