Quando Amandinha acertou seu ingresso nas Leoas da Serra, em novembro de 2016, o mundo do futsal feminino estranhou. Ela já era então bicampeã da disputa de melhor atleta de futsal do planeta, e contava três títulos mundiais pela seleção brasileira - dois deles, fazendo gols nas finais. As comparações entre o futsal feminino e o futebol masculino são quase impossíveis, pois são universos separados por galáxias, mas era algo como o Inter de Lages trazer para a sua camisa 10 o argentino Lionel Messi. A melhor do mundo estava em Lages.

À época, as Leoas eram uma nota de rodapé na história da modalidade. Talvez menos. Os grandes times eram Female, de Chapecó, e Barateiro, de Brusque, este último com sua ascensão diretamente ligada ao crescimento de Amandinha como atleta. No time brusquense ela chegou como Sub-17 e saiu como Rainha. Os outros times de destaque no país eram São José, de São Paulo; Cianorte, do Paraná; a gaúcha Celemaster e a cearense Unifor. As Leoas da Serra e a cidade de Lages não estavam no mapa. O projeto ainda era um sonho.

A vinda de Amandinha pavimentou o caminho para outras craques. Afinal, estrada aberta pela melhor do mundo não pode levar a lugar ruim. Menos de um ano depois, o time lageano estava na final da Copa do Brasil com o ginásio Jones Minosso lotado, cena que se repetiu logo depois nos JASC que a cidade sediou. Todos os jogos com lugares esgotados. Lages se encantou por suas Leoas e pela camisa 10, e a recíproca foi verdadeira: "A lembrança do Jones lotado pela primeira vez ainda me emociona. Não era só um ginásio, era a cidade inteira por nós. E nós pela cidade. Eu ampliei meu horizonte graças a Lages e ao povo daqui", diz   Amandinha.

Dizer que assim as Leoas entraram no mapa do futsal feminino é pouco. Com Amandinha, as Leoas mudaram o mapa da modalidade e Lages passou a ser o centro. Dois feitos inéditos para times brasileiros foram assinados pelas Leoas. Pela primeira vez, o time campeão sul-americano reuniu condições de enfrentar as campeãs europeias na disputa do Mundial de Clubes. E também pela primeira vez, o futsal feminino brasileiro entrava na grade do Grupo Globo com jogos entre clubes. Tudo graças às Leoas, impulsionadas por sua camisa 10.

As conquistas da equipe se multiplicaram. No Sub-20, três campeonatos catarinenses e uma Taça Brasil. No adulto, três campeonatos catarinenses, dois Jogos Abertos, duas Supercopas, uma Liga Catarinense, uma Copa Santa Catarina, uma Taça Brasil, uma Copa do Brasil, uma Copa Libertadores e o Mundial Interclubes. Representando a Uniplac, dois estaduais e um brasileiro universitário. E Amandinha, que chegou em Lages com dois títulos de melhor do mundo, já conta sete conquistas como a número um do planeta, consecutivamente. A mídia nacional já cuidou de registrar a trajetória de Amandinha, desde a quadra de cimento do Conjunto Ceará, na periferia de Fortaleza. Agora, a Revista Visão bate um papo com esta pequena notável, a partir da sua experiência na Serra Catarinense e perspectiva de futuro.

VISÃOQual a sua primeira impressão de Lages? Você lembra?

Amandinha – A primeira vez que eu estive em Lages foi em abril de 2016. Eu ainda jogava pelo Barateiro, de Brusque, e viemos enfrentar as Leoas, que ainda era um time desconhecido. Eu lembro bem de duas coisas: que achei tudo muito organizado, principalmente a cobertura da mídia, e que estava bem frio, e eu nem sonhava que aquele frio não era nada perto do que eu ainda conheceria. Pouco depois, em junho de 2016, a cidade recebeu a seleção brasileira Sub-20 para um período de treinamento e para um amistoso contra as Leoas para reinaugurar o Ivo Silveira. Eu já tinha quase 22 anos, mas tinha conhecidas convocadas para aquela seleção, que jogavam comigo no Barateiro, e percebi que o projeto estava no começo, mas teria vida longa. Não é qualquer cidade que se dispõe a receber a seleção brasileira Sub-20.

VISÃOE pouco depois disso você foi contratada pelas Leoas, né? Como foi?

Amandinha – Foi uma sucessão de acasos. Em novembro de 2016 o time Sub-20 das Leoas foi a Brusque, jogar pelo estadual da categoria, e eu fui ao ginásio assistir, porque ia a todos os jogos do Barateiro. Naqueles dias, uma crise de relacionamento atingiu seu ápice e o time foi desfeito. A Jhennif, do Sub-20, recebeu proposta então para vir para as Leoas, e sugeriu ao Mauricio que me contratasse também. Mas na verdade, nem eu e nem o Mauricio levamos essa possibilidade muito a sério a princípio.

VISÃOFale mais sobre isso. Como a conversa evoluiu?

Amandinha – Eu tinha propostas para jogar em clubes de São Paulo e do exterior. Mas as Leoas iam jogar a Taça Brasil naquele mês de dezembro, e aí acertamos que eu jogaria só aquela competição. A Jhennif também, e depois ainda trouxemos a Diana. Quando o Mauricio nos recebeu, ele agradeceu por nós termos aceitado, e que só daquele jeito mesmo, para uma competição isolada, para isso ser possível, porque as Leoas não eram ainda um time de ponta. Aí jogamos a competição, chegamos na final, empatamos com a Female na decisão e ficamos com o vice nos critérios de desempate. Mas eu fiquei impressionada, foram 2500 pessoas ao ginásio, o maior público para o qual eu já tinha jogado por um clube. Depois do jogo, no vestiário, a gente estava muito triste porque não tinha conseguido retribuir o carinho com o título, e o Mauricio fez uma roda para conversar com a gente. Eu, acostumada a muitas cobranças, ouvi algo que me surpreendeu. “Eu quero agradecer a vocês. O título não veio, mas todos no ginásio foram embora orgulhosos, porque se sentiram bem representados. Ver a nossa gente feliz vale mais do que um troféu. A gente não vive sem cicatrizes, não tem essa opção, e essa ferida de hoje vai cicatrizar e eu vou ter muito orgulho dela”. Aquilo me marcou. Eu já sabia que as Leoas tinham escolinhas, vi uma torcida doida para se apaixonar pelo time, e um diretor que pensava diferente. Antes de ir para Fortaleza passar as férias, eu disse ao Mauricio: “Dá um jeito que eu quero voltar pra Lages e ficar muito tempo aqui”.

 

VISÃOE agora que lá se vão quase cinco anos, você acredita que foi a melhor decisão?


Amandinha – Eu não tenho nenhuma dúvida disso. As Leoas elevaram o conceito do futsal feminino para quem ainda não conhecia o nome da modalidade, e fizemos isso levando o nome de Lages para todo o país, para o continente, para o mundo. Nós temos uma diretoria que conversa com a gente, mesmo que nem sempre a gente enxergue as coisas do mesmo modo. Tem a Gi Morena, que além de presidente é ex-atleta lá do comecinho das Leoas, e por isso entende as jogadoras. O prefeito Ceron já foi em treinos conversar com a gente, vai aos jogos, até viajou para ir na final dos JASC em Caçador. Você não faz ideia da sensação do que é o Jones lotado, e no final dos jogos as pessoas fazendo fila para fazer uma selfie, para dar um abraço. Tem o carinho dos patrocinadores, Uniplac, Engie, Transul, não vou citar todos porque esqueceria de algum e seria injusto. E as pequeninhas na escolinha? A gente percebe o futuro ali.  Vejo pessoas reclamando daqui, sabe? Como vou reclamar, se eu escolhi e fui acolhida? Eu amo a cidade de Lages e amo as Leoas da Serra, e sinto que esse amor é correspondido. Minha família veio morar aqui. Para mim, é o melhor lugar do mundo.

 

VISÃOQuais são seus momentos inesquecíveis aqui em Lages?

Amandinha – Muitos, mas quero destacar três. Os JASC com o Jones lotados em todos os jogos em 2017. A volta pela cidade em cima do carro dos bombeiros em 2018, mostrando a Libertadores para as pessoas, com gente vindo para as calçadas e janelas comemorar com a gente. E a final do Mundial de Clubes, depois de termos perdido lá na Espanha, ganhamos no tempo normal e na prorrogação, quando fiz os dois gols. Claro que também teve a formatura na Uniplac, e tantos outros momentos da vida pessoal, como comprar meu apartamento. Mas, na parte esportiva, foram esses três ali. Também tem uma coisa engraçada, no primeiro inverno aqui eu achei que ia morrer de frio. Imagina, uma cearense acostumada a sol o tempo todo, sair pisando na geada. Mas dois anos depois eu estava de férias no Ceará e quando vi estava achando quente demais e me deu saudade do clima de Lages. Foi quando vi que era lageana de coração.

VISÃO Para finalizar, o que falta ganhar, Amandinha?

Amandinha – Falta ganhar o próximo jogo. Falta treinar melhor o próximo treino. Não importa o que já foi conquistado, minha vida é trilhar o caminho que a bola escolhe. E falta mostrar o futsal feminino para quem não o conhece. Falta você que me lê e que ainda não viu a gente jogar, ir lá no Jones ser feliz com a gente. Falta ver todas as meninas do futsal brasileiro podendo viver da modalidade. E falta ver na entrada da cidade um outdoor escrito “Bem-vindo a Lages, terra das Leoas da Serra, campeãs mundiais de futsal”.

Texto _ Revista Visão

Foto_ Gugu Garcia